26/07/2017

Cientistas revelam que os corvos são capazes de fazer planos para o futuro

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 Um grupo de cientistas revelou que, tal como os humanos e os grandes primatas, os corvos têm a capacidade de resolver problemas de lógica para obter prémios. Aliás, estas aves também são capazes de renunciar a uma recompensa imediata para conseguir outra melhor no futuro. 

Para testar essas capacidades, os cientistas da Universidade de Lund, na Suécia, submeteram cinco corvos – dois machos e três fêmeas – a uma série de testes. No primeiro, as aves foram treinadas para usar uma ferramenta para abrir uma caixa, de modo a receberem uma recompensa.
 
Depois, os corvos receberam a ferramenta para abrir a caixa, tal como outros itens que tinham o objetivo de distrair os animais.

Segundo o estudo publicado na Science, quase todos os corvos escolheram a ferramenta correta e, ao receberem a caixa 15 minutos depois, usaram a ferramenta para a abrir, “com uma taxa de sucesso de 86%”.

Aliás, os corvos conseguiram ainda manter essa capacidade de previsão até ao dia seguinte para abrir a caixa com a ferramenta adequada.
Mas o mais interessante aconteceu quando os cientistas ofereceram diferentes objetos aos animais, entre eles uma ficha que as aves aprenderam que podiam trocar por um pequeno prémio. Sempre que os especialistas mostravam a ficha, os corvos escolhiam-na para obter um pequeno prémio de imediato.

No entanto, quando ofereceram aos corvos uma caixa junto com a ferramenta para a abrir, e uma recompensa imediata, os animais escolheram a primeira opção porque sabiam que poderiam abrir a caixa mais tarde e obter um prémio melhor.

Segundo os especialistas, os corvos escolheram a ficha que poderia ser usada mais tarde para troca com um sucesso de 78%, demonstrando também uma boa capacidade de reflexão quando tinham de escolher entre uma recompensa imediata ou uma recompensa maior quando conseguissem abrir a caixa.

“Este estudo prova que os corvos tomam decisões para o futuro sem terem em conta o que estão a sentir no momento”, destacam os cientistas, sublinhando que os animais mostraram capacidades semelhantes ou superiores às de crianças de quatro anos.

Mas esta não é a primeira vez que os corvos surpreendem os humanos com a sua inteligência. Um estudo publicado no mês passado concluiu que estas aves são capazes de se lembrar durante um mês do rosto de uma pessoa que os tenha enganado numa situação.

Deste modo, os cientistas colocam a necessidade de se continuar a estudar o cérebro destes animais. “Os corvos são tão inteligentes, provavelmente devido a uma combinação de muitos fatores, como o seu grande cérebro com muitos neurónios e condições ambientais que podem ter requerido habilidades cognitivas complexas, ou seja, a necessidade de se resolver problemas como encontrar fontes de alimento separadas”, explica Can Kabadayi, da Universidade de Lund.

25/07/2017

Britânicos voltam a contar, medir e pesar todos os cisnes de Londres

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Já começou a tradicional contagem anual dos cisnes em Londres. Até ao final da semana, os contadores oficiais vão percorrer o rio Tamisa para identificar, pesar e medir todos os de cisnes da cidade.
Esta é também uma forma de assegurar que os cisnes da capital britânica estão saudáveis, sendo cada um deles examinado para procurar ferimentos ou indícios de doença, conta a Associated Press.
O Censo Anual dos Cisnes é uma tradição com quase mil anos, especialmente importante no século XII quando estas aves eram uma importante fonte de alimento.
Atualmente, os cisnes são considerados animais protegidos no Reino Unido e, por lei, os de Londres são propriedade da Rainha Isabel II.

24/07/2017

Quercus pede "atuação rápida e urgente" no caso da morte de aves na Moita

Pedido é dirigido ao Ministério do Ambiente e ao Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente. Em causa está o surgimento de várias aves mortas na Moita e que já está a ser investigado pela Câmara.

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A Quercus exigiu este domingo uma "atuação rápida e urgente" por parte do Ministério do Ambiente - através da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT) - e do Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente (SEPNA) face ao aparecimento de várias aves e peixes mortos no Rio da Moita e na Caldeira da Moita, no distrito de Setúbal.
Segundo a Quercus, devem ser realizadas "análises à água dos locais afetados" e deve-se proceder à "deteção de potenciais fontes de poluição". "Do mesmo modo, deve ser analisado o nível de toxicidade presente nos animais já mortos e identificados os poluentes", refere o comunicado, assinado pela direção nacional da Quercus.
Em 12 de julho, a Câmara Municipal da Moita anunciou que estava a investigar o aparecimento de vários animais mortos, em especial patos, na confluência do Rio da Moita com a Caldeira da Moita, junto ao Largo da Feira.




Na altura, a autarquia referiu que surgiram "muitos exemplares de aves mortas", informando que já tinha contactado o SEPNA, a Divisão de Alimentação Veterinária de Setúbal e a Direção de Serviços de Alimentação e Veterinária da Região de Lisboa e Vale do Tejo, tendo também efetuado várias análises com o Laboratório Pró Qualidade (LPQ) para investigar as causas.
"A morte repentina de tão elevado número de animais e a diversidade de espécies afetadas (sendo que os relatos mais recentes identificam patos, pombos e peixes) leva a pressupor que não se trata de uma qualquer doença súbita, mas sim consequência de uma qualquer descarga ilegal de elevada carga poluente, ou técnicas inadequadas e proibidas de controlo de espécies", conclui a Quercus.
Para a associação ambientalista, é "inadmissível que este tipo de incidentes ocorra sem que haja uma explicação cabal e totalmente esclarecedora das suas causas e origens".

17/07/2017

Vários casais de abutre-preto voltaram a nidificar este ano no Alentejo

Vários casais de abutre-preto voltaram a nidificar este ano no Alentejo, em ninhos artificiais instalados na Herdade da Contenda, no concelho de Moura, anunciou hoje a Liga para a Proteção da Natureza (LPN). 

"Tal como nos dois últimos anos, um desses casais criou com sucesso uma cria de abutre-preto, dando assim continuidade ao restabelecimento de um núcleo reprodutor desta ave no sul de Portugal", adianta a LPN em comunicado. 

A monitorização realizada pela LPN em colaboração com a Herdade da Contenda confirmou este ano a existência de três a quatro casais nidificantes de abutre-preto nesta herdade, no concelho de Moura, um dos quais num ninho natural construído pela espécie.

Outros casais usaram os ninhos artificiais instalados pelo projeto LIFE para promoção do habitat do lince-ibérico e do abutre-preto no sudeste de Portugal. 

Segundo a LPN, "dois destes casais fizerem postura de um ovo (como é característico da espécie), dos quais nasceram duas crias de abutre-preto". 

Uma das crias sobreviveu apenas alguns dias, mas a outra encontra-se já com quase três meses de idade e em "perfeitas condições físicas".

Esta cria de abutre-preto foi marcada com uma anilha com um código, que permitirá continuar a identificá-la quando deixar o ninho, refere a liga, adiantando que se trata de uma fêmea, conforme revelou uma análise genética efetuada.

Desde que em 2015 a espécie voltou a reproduzir-se no Alentejo, após mais de 40 anos sem registo de reprodução a sul do rio Tejo, este é o terceiro ano consecutivo que o abutre-preto cria com sucesso na região. 

"Este é um resultado que vem reforçar o restabelecimento de um núcleo reprodutor desta ave no Alentejo, tendo sido possível, sobretudo, em consequência das medidas implementadas no âmbito do projeto LIFE", coordenado pela LPN, e da "indispensável colaboração da Herdade da Contenda, Empresa Municipal", salienta a liga.

Segundo a LPN, "os abutres são extremamente importantes para manter a sanidade dos ecossistemas, estando no entanto ameaçados de extinção em Portugal e sujeitos a diversas ameaças à sua sobrevivência, a maioria de origem humana, de onde se destacam o envenenamento ilegal e a escassez de alimento"

A liga alerta que a utilização do 'diclofenac' (um anti-inflamatório não esteroide) para o tratamento do gado representa um enorme risco para estas aves necrófagas em Portugal, "especialmente agora que o Estado Português está a avaliar a autorização do seu uso na pecuária". 

Várias organizações ambientalistas lançaram hoje uma campanha, "Não sejas tu o abutre", que reclama a proibição deste fármaco na Europa.

A campanha é promovida pelas organizações SEO/BirdLife, WWF Espanha, Sociedade Portuguesa para o Estado das Aves e Vulture Conservation Foundation.

16/07/2017

Câmara da Moita investiga aparecimento de aves mortas na Caldeira da Moita

A Câmara Municipal da Moita está a investigar o surgimento de vários animais mortos, em especial patos, na confluência do Rio da Moita com a Caldeira da Moita, junto ao Largo da Feira, anunciou hoje a autarquia.

"Nos últimos dias, surgiram muitos exemplares de aves mortas na confluência do Rio da Moita com a Caldeira da Moita, junto ao Largo da Feira. A fim de apurar as causas deste incidente, a Câmara Municipal da Moita tem estado a proceder a diversas diligências junto das entidades competentes", refere a autarquia, em comunicado.

Nas redes sociais surgiram vídeos e fotografias em que é possível ver os animais muito debilitados ou já mortos na zona da Caldeira da Moita.

A autarquia salienta que já contactou o Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente da GNR e a Divisão de Alimentação Veterinária de Setúbal, a Direção de Serviços de Alimentação e Veterinária da Região de Lisboa e Vale do Tejo, tendo também efetuado várias análises com o Laboratório Pró Qualidade (LPQ) para investigar as causas.

Também o Partido Socialista da Moita abordou o tema, lembrando que já tinha interrogado a autarquia, liderada por Rui Garcia (CDU), sobre o assunto.

"Não obstante o PS ter interrogado a Câmara sobre a morte de patos e peixes no Rio da Moita e na Caldeira e termos obtido como resposta que já tinham feito queixa à GNR e a diversas entidades, a verdade é que a mortandade continua", refere o PS Moita.

Os deputados do PS, eleitos pelo Círculo Eleitoral de Setúbal, anunciaram hoje que já questionaram o Ministério do Ambiente sobre a ocorrência detetada.

"Na vala real que percorre a área que vai da Autoeuropa (Palmela) até à caldeira da freguesia de Moita (Moita) foram, recentemente, identificados patos e pombos mortos, o que permite presumir ter existido descarga inadequada", referem os deputados.

Eurídice Pereira, deputada e coordenadora do grupo de deputados socialistas de Setúbal, refere que é público que a ocorrência foi participada à GNR, mas que se desconhecem mais pormenores.

"Queremos saber se é do conhecimento do Ministério do Ambiente a referida ocorrência e o que dela se conhece, se teve participação da ocorrência por parte da Câmara Municipal da Moita, que diligências pretende o Ministério desenvolver para identificar a origem do problema e procurámos ainda saber se, nos últimos três anos, teve algum conhecimento de ocorrências na referida vala e que medidas foram tomadas", afirmou.

13/07/2017

CERVAS devolve 55 aves selvagens à natureza

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A partir de hoje e até ao final de Agosto, o Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), de Gouveia, inicia um conjunto de diversas acções de devolução à Natureza de 55 aves selvagens que foram acolhidas no centro com vários problemas, a decorrer em diferentes pontos dos distritos de Viseu, Aveiro, Guarda e Coimbra.

12/07/2017

Festival de Observação de Aves de Sagres recebe Menção de Mérito em concurso nacional

 photo Sagres_Festival-de-Observacao-de-Aves_er_17_zpszmwtdwwn.jpgO Festival de Observação de Aves & Atividades de Natureza de Sagres recebeu uma Menção de Mérito, na área Economia/Turismo, no âmbito do concurso “Melhores Municípios para Viver”, organizado pelo Instituto de Tecnologia Comportamental da Universidade de Lisboa.
A cerimónia de entrega dos prémios decorreu esta terça-feira, 27 de Junho, na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.
O galardão foi entregue a Adelino Soares, presidente da Câmara de Vila do Bispo, que, na ocasião, fez a apresentação pública do projeto.
Este concurso, de âmbito nacional, dá a conhecer projetos que promovem e fomentam a qualidade de vida nos Municípios portugueses, e tem como objetivo premiar a criação e implementação de projetos municipais que procuram aumentar a qualidade de vida da população, do município onde residem, a nível social, ambiental ou económico.
Quanto ao Festival de Observação de Aves é uma atividade integrável no turismo de natureza e com «excecional potencial na região de Sagres, reconhecida pelo facto de apresentar valores naturais e condições no terreno que podem competir com vantagem face a outros destinos semelhantes, como é o caso de Espanha», considera a autarquia vilabispense.
Portugal dispõe de inúmeros locais com interesse para a prática da observação de aves. «Localizado no concelho de Vila do Bispo e integrado no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, Sagres é um local de destaque para a avifauna nacional, pois aqui podem ser observadas praticamente todas as espécies presentes no país, acolhendo ainda outras únicas», acrescenta.
É que, segundo a Câmara de Vila do Bispo, «Sagres apresenta-se como palco de um fenómeno natural que, em Portugal, não encontra semelhante – a grande migração outonal de passeriformes, rapinas diurnas e noturnas, aves marinhas e, de forma mais emblemática, as grandes aves planadoras. De Agosto a Novembro, esta zona torna-se no ponto de congregação de aves migratórias no nosso país».
Também por isso «Sagres tem vindo a ser progressivamente procurada, sobretudo nas duas últimas décadas, por turistas e investigadores da ornitologia provenientes de todo o mundo».
 photo vila-do-bispo-preacutemio-768x564_zpsl94wxgil.jpg Este projeto, promovido e organizado pela Câmara Municipal de Vila do Bispo, em parceria com a Almargem e a SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, já tinha sido distinguido em 2015, com o prémio “Município do Ano Portugal 2015”, atribuídos pela plataforma UM-Cidades da Universidade do Minho.
No ano de 2016 Vila do Bispo obteve mais uma distinção nacional, com este projeto: um 1º prémio, a nível nacional, na categoria “Prémio Sustentabilidade 2015-2016”, atribuído pela ExpoEventos.
Este ano o Festival de Observação de Aves realiza-se de 4 a 8 de Outubro.

10/07/2017

Descoberta espécie de papagaio amazônico que imita sons de gaviões

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RIO — Uma nova espécie de papagaio foi descoberta na região Amazônica, na Península de Yucatán, no México. Batizada como Amazona gomezgarzai, a ave é considerada única pelas penas azuis nas asas e pela coroa verde, que contrasta com as coroas azuladas das outras espécies amazônicas conhecidas. Além disso, o canto se parece com o de aves de rapina, algo nunca visto entre papagaios.

“Uma característica muito distinta é seu canto alto, afiado, curto, repetitivo e monótono, vocalização mais reminiscente à dos gaviões que à dos papagaios que conhecemos”, disseram os pesquisadores em artigo publicado nesta terça-feira na “PeerJ”.

O animal foi encontrado em 2014 pelo ornitólogo Miguel A. Gómez Garza, da Universidade Autônoma de Nuevo León, em Monterrey, mas descrito cientificamente como uma nova espécie apenas agora. Em entrevista ao “Guardian”, Gómez Garza recordou o momento em que avistou meia dúzia de papagaios numa árvore, com plumagem azul e a fronte vermelha, cores diferentes das outras duas espécies conhecidas que habitam a região.

— Eu não conseguia acreditar — contou Gómez Garza. — O barulho diferente pertencia a um papagaio diferente.

 photo xblue-wingedparrot.jpg.pagespeed.ic.T8i2SxreuA_zpsagd2sj67.jpg O A. gomezgarzai mede cerca de 25 centímetros de altura e vive em pequenos bandos, com até 12 indivíduos. Os casais com seus filhotes tendem a ficar juntos, e isso é observável nos grupos. Como todos os membros do gênero Amazona, o papagaio é herbívoro, com dieta baseada em sementes, frutas, floras e folhas.

O canto parecido com o de aves de rapina ainda não tem uma explicação, mas os pesquisadores especulam que a imitação do predador pode assustar outros pássaros, deixando mais alimentos para os papagaios.

Com autorização do governo mexicano, um macho e uma fêmea foram capturados para a realização de exames. Testes de DNA indicaram que a espécie evoluiu do Amazona albifrons, que era nativo na região há cerca de 120 mil anos.

Após a descrição científica, a preocupação é a com a manutenção. Pelas suas observações, Gómez Garza acredita que existam não mais que cem papagaios dessa espécie, o que torna a conservação urgente.

— Globalmente, os papagaios enfrentam a destruição de seus habitats — disse o pesquisador. — O comércio ilegal internacional não é tão alarmante como em anos atrás, mas continua localmente com algumas espécies.

08/07/2017

O maior canário do mundo é da ilha de São Tomé


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Quando pensamos em canários vem-nos logo à cabeça uma ave amarelinha. Mas esqueçamos as ideias feitas, porque o maior de todos é castanho-escuro, quase arruivado, e tem um grande bico. É também uma ave imprevisível: foi vista pela primeira vez no final do século XIX e depois foram precisos mais de 100 anos até ser de novo observada. O bico-grossudo-de-são-tomé vive nas florestas primárias no Sul da ilha de São Tomé, no golfo da Guiné, e nos últimos anos tem sido alvo de um novo estudo e até ganhou um novo nome científico: agora é o Crithagra concolor, como se pode ler num artigo na revista International Journal of Avian Science.

Em 1888, o naturalista português Francisco Newton apanhou o primeiro bico-grossudo-de-são-tomé. Ou melhor, um anjolô, como ficou conhecido na altura em associação a tcholô, que significa “ave” para os habitantes do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Dois anos depois, o naturalista capturou mais dois exemplares. Um deles, que serviria para descrever a espécie, foi para o Museu de História Natural de Londres. Os outros foram para o Museu de História Natural de Lisboa e em 1978 acabaram por ser destruídos por um grande incêndio.
Digamos que o século XX foi negro para esta ave. Pensava-se até que estivesse extinta. Só em 1991 foi vista por observadores de aves britânicos e sul-africanos, como nos indica Martim Melo, biólogo do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio), da Universidade do Porto, e principal autor do artigo na International Journal of Avian Science.

 photo 1141540_zpsbidwpple.jpgO século XXI marcou um novo rumo. Em Janeiro de 2002, a ave foi observada pela equipa de Martin Dallimer, da Universidade de Leeds (Reino Unido). Nesse mesmo ano, Martim Melo iniciou um doutoramento sobre a origem das aves endémicas de São Tomé e Príncipe. Afinal, só as florestas de São Tomé há 17 aves que só vivem ali. Têm mais duas espécies endémicas que partilham com a ilha do Príncipe e uma outra que também se encontra no Príncipe e na ilha de Ano-Bom (da Guiné Equatorial).

Martim Melo sabia que para encontrar o bico-grossudo-de-são-tomé tinha de ir pelas florestas primárias e, para isso, teve a ajuda de três são-tomenses que conheciam bem o terreno: Pedro Leitão, Luís Mário e Lúcio Primo. Foi nessa aventura que em Dezembro de 2002 observou a ave pela primeira vez. Encontrou também um arbusto endémico (o Dicranolepis thomensis), como o que Martin Dallimer tinha encontrado quando observou o bico-grossudo-de-são-tomé. Contudo, as bagas ainda estavam verdes. Esperou um mês e, já em 2003, Martim Melo voltou ao local. Mas continuavam verdes.

Como resolver o problema? Pintou-as de vermelho e colocou lá redes. Parecia ter sido em vão. E quando estava prestes a retirar as redes, eis que viu que estava lá uma ave: o imprevisível bico-grossudo-de-são-tomé. “Um enorme grito ecoa pela floresta”, contou Martim Melo num resumo sobre o artigo.

Apesar dos esforços nos anos seguintes, em 2005 apanhou mais dois exemplares. E em 2011, numa expedição financiada pela National Geographic, capturou outro. Próximo passo: perceber em laboratório a evolução desta ave. Afinal, como dizia no resumo: “Conseguir amostras de sangue desta espécie soa um pouco como pôr as mãos no Santo Graal.”

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Antes de libertar os exemplares, mediu-os e recolheu amostras de sangue. Percebeu então que era mesmo um canário, pois antes havia a dúvida se seria um tecelão ou um canário. Esta “expedição” em laboratório levou também a que lhe fosse dado um novo nome. Em vez de Neospiza concolor, como a designou o zoólogo José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907), passou a ser Crithagra concolor, que pertence à família Fringillidae, onde estão os canários.

Percebeu assim que estava perante o maior canário do mundo. Tem cerca de 20 centímetros e ultrapassa o Crithagra burtoni (ou canário-cinzento-das-montanhas, que se encontra no Monte Camarões ou em montanhas de Angola), que tem cerca de 15 centímetros. O Crithagra concolor é também 50% mais pesado do que o seu “parente”.

E como é que o bico-grossudo se tornou gigante? Por enquanto há só hipóteses. “Muitas vezes nas ilhas, as espécies aumentam de tamanho”, explica Martim Melo. Isto porque em geral há pouca competição entre espécies e a espécie que chegou primeiro, neste caso o bico-grossudo-de-são-tomé, vai crescer mais. E quando chegaram à ilha outros indivíduos da mesma espécie, a competição aumentou (como aconteceu com a chegada do canário-de-são-tomé-e-príncipe), nomeadamente por recursos alimentares. No final, os indivíduos que divergiram mais foram favorecidos. O antepassado do bico-grossudo terá sido assim o que cresceu mais, tornando-se um canário gigante. Além disso, o seu bico de dois centímetros conseguia sementes que o canário-de-são-tomé-e-príncipe não conseguia.

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Quanto à sua cor diferente da de outros canários, também há só hipóteses. A cor é um sinal de saúde nas aves e atrai mais as fêmeas. Vem de substâncias como os carotenóides (um grupo de pigmentos naturais reconhecidos como compostos bioactivos benéficos para a saúde) importantes para o sistema imunitário e também dão a cor amarela (por exemplo) aos canários. Como nas ilhas há menos parasitas, a cor deixa de ter a função de mostrar que têm saúde.

A má notícia é que este canário está “criticamente em perigo” segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza. “É pouco vista”, diz o biólogo. “Há menos de 50 indivíduos adultos, mas pode não ser bem assim. Queremos que fique pelo menos ‘em perigo.’” E ainda há outras questões, como: “Por que é que só aparece na floresta primária?” Por enquanto, Martim Melo tem uma certeza: “É um canário como os outros, mas muito mais distinto.”
 
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